pai-filho

Os pontos da história de Esaú a serem considerados são:

Esaú, por ser o filho primogênito, obteve por direito de nascimento os privilégios antes descritos como pertencentes ao primogênito. Ele não teve de conquistá-los ou comprá-los. Eles foram unidos a ele por nascimento, de acordo com a vontade de Deus. Entretanto, era sua obrigação retê-los. Esaú, porém, os considerou de tão pequeno valor que logo os negociou, trocando-os por uma gratificação passageira ao paladar. Não se tratava de dificuldade em obter qualquer outro tipo de alimento, pois ele havia chegado ao acampamento. O fato, como registrado por Deus, foi que ele desprezou o seu direito de primogenitura. Embora mais tarde, estando arrependido de sua estupidez, Esaú constatou ser impossível reverter seu próprio ato, ou mudar a mente de seu pai, no tocante a assegurar a benção mais rica que acompanhava a posse dos direitos da primogenitura.

Acreditamos ser simplesmente impossível que Esaú seja oferecido como advertência para o falso professo da fé, que não está realmente em Cristo Jesus. Isso porque Esaú era filho legitimo de Isque, e não um bastardo ou estrangeiro. Ele obteve legalmente os direitos do primogênito, não sendo um falso reclamante. Mesmo depois da perda desses direitos, seu pai o abençoou tão plenamente quanto possível, embora não lhe pudesse restituir a prioridade que ele próprio havia lançado fora. Ele não perdeu aquelas coisas que teriam feito dele uma possível representação de alguém finalmente perdido, isto é, a vida ou a filiação. Mas ele perdeu sua dignidade superior e seus privilégios.

Nenhuma dessas condições é preenchida numa pessoa não-regenerada, a despeito de quão razoável e contínua seja sua declaração de ser cristã. Pessoas assim não são filhos de Deus de modo nenhum; não serão de maneira nenhuma abençoados, e sim reprovados, não possuindo, ou melhor, não tendo possuído a vida eterna, mas sendo “filhos da ira, como os demais”. Os dois casos são totalmente diferentes; porém, o caso de Esaú mais precisamente corresponde aos genuínos cristãos caso, a que ele é aqui aplicado. “Tendo cuidado de que ninguém […]”, diz a Escritura, “seja devasso ou profano, como Esaú, que por uma refeição vendeu o seu direito de primogenitura”. E depois, num parágrafo diretamente ligado por uma partícula àquela advertência, é acrescentada a seguinte declaração: “Mas chegastes  [vós que sois assim advertidos] […] à universal assembléia, à igreja dos primogênitos” (Hb 12.15,16,22,23). De modo que a advertência é dada àqueles que possuem direitos semelhantes na família e na esfera celestiais. A esses pode ela ter tal força. Advertir alguém contra a perda de algo que não possui é uma futilidade, que não nos atrevemos a atribuir ao Espirito do Senhor.

Mas verdadeiros crentes, nascidos de Deus e chamados para Seu reino e glória, preenchem os fatos no caso de Esaú. Tais pessoas são verdadeiramente filhos de Deus pela fé em Cristo Jesus, primogênitos de Sua família e possuem os direitos da primogenitura. Eles não têm de ganhá-los, comprá-los ou conquistá-los. Esses direitos são, em sua totalidade, um direito da primogenitura pela graça soberana do Senhor. Mas os filhos têm de valorizá-los e conservá-los, e são advertidos com respeito à perda deles. Sua filiação é inalienável e sua vida eterna não é passível de perda, não sendo depositada e guardada por eles, por sua conta e risco, mas “oculta juntamente com Cristo em Deus” (Cl 3.3). Se os cristãos estiverem certos de que tudo, tudo está garantido, grande será o perigo de permitir um descuido sutil de coração. Porém, se a retenção destes altos privilégios foi condicionada a nosso caminhar, forte é a motivação para avançarmos até a perfeição.

A perda dos direitos da primogenitura é mais indicada e enfatizada na história de Rúben. Sendo o filho primogênito de Jacó, essa honra era dele; mas, por se submeter aos desejos sensuais não naturais, lhe foi tirada (1Cr 5.1) e foi dada, quanto ao território, aos filhos de José, o qual recebeu em seus filhos a porção dobrada; a soberania coube à tribo de Judá na pessoa de Davi e seus filhos, incluindo o Messias; e o sacerdócio, a Levi. Isso estava na mente do escritor quando ele especificou em nossa passagem o pecado de fornicação?

Todavia, Rúben permaneceu na família e foi abençoado em medida; mas, ao mostrar que os direitos em questão uma vez perdidos não podem ser recuperados, deve-se lembrar que, nos dias do reino vindouro, a situação ocasionada pelo mal comportamento de Rúben será mantida: o Rei virá da casa de Judá, o sacerdócio em Israel será da família de Zadoque, o levita (Ez 48.11) e Efraim e Manassés possuirão a porção dobrada. Essas coisas Rúben perdeu para sempre, ainda que permanecendo na casa de Israel e partilhando de uma porção, sendo essa comum, e não de grau especial. Todas essas coisas são vistas comparando-se as declarações finais e proféticas de Jacó (Gn 49.1-4) e as de Moisés (Dt 33.6); pois, Jacó declarou que a dignidade do primogênito com sua posição de superioridade e poder pertencia a Rúben; todavia não seria dele nem nos últimos dias. Moisés garantiu vida para a tribo e nada mais: “Viva Rúben e não morra; e não sejam poucos os seus homens”.

A transferência do direito da primogenitura também é mostrado em 1Crônicas 26.10. No início desse capítulo nos é relatado um acontecimento ocorrido na família levita, trazendo a lição para nós, que somos chamados ao serviço celeste, tipificado pelo serviço no tabernáculo.

O principal tema dessa passagem em Hebreus, e na verdade de toda a carta, é resumido nas palavras de 12.28: “Recebendo um reino”. O assunto em questão é esse, e não a segurança da salvação em relação à perdição eterna. A epístola pressupõe que o benefício da salvação eterna está seguro desde o início aos considerados “santos irmãos participantes da vocação celestial” (3.1). Portanto, sendo essa chamada um privilégio pela graça de Deus em Cristo, não devemos “nos desviar Daquele que dos céus nos adverte”; isto é, Aquele que nos adverte com histórias como a de Esaú e de outros, pois, existindo no final um tremor, removamos todas as coisas abaláveis, para que somente as inabaláveis e eternas permaneçam.

Para a glória do soberano no reino, iniciando-se no milênio e prosseguindo eternamente, é que somos chamados. Devemos, então, pela graça de Deus, servir de maneira aceitável ao Deus da graça, esforçando-nos por Ele e cumprindo toda a Sua vontade, não em vaidade carnal, como se pouco importasse como vivemos e servimos, mas com “reverência e santo temor, porque o nosso Deus é fogo consumidor”, como muitos de Seu povo tem presenciado.

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Fonte: extinta revista A Palavra Profética (set-out/1987) – Nº 3. Revisado por Francisco Nunes. Este artigo pode ser distribuído e usado livremente, desde que não haja alteração no texto, sejam mantidas as informações de autoria e de tradução e seja exclusivamente para uso gratuito. Preferencialmente, não o copie em seu sítio ou blog, mas coloque lá um link que aponte para o artigo.
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