Tive o privilégio de assistir às aulas e de conhecer um dos grandes hebraístas deste nosso país.

Ele não sofre mais as tribulações desta terra. Aquele velho pastor luterano e acadêmico respeitado partiu para estar com o Senhor. Poderia eu lembrar que participou daquela questionável abordagem teológica chamada teologia da libertação, mas prefiro lembrar outras coisas.

Prefiro lembrar quando ele pedia desculpas ao indicar alguma obra sua cuja publicação pertencia a editoras que cobravam preços, para ele, exorbitantes. Prefiro lembrar que após determinada experiência fora exortado a disseminar livremente seu conhecimento, e que desde então providenciou que seus livros fossem vendidos a preços baixíssimos, “apenas para cobrir custos”, como me disse.

Prefiro me lembrar da humildade, infelizmente não tão comum entre os grandes doutores, da disponibilidade para atender, para receber e conversar. Prefiro me lembrar da porta aberta de sua casa, recepcionando com afeto quem ali fosse conversar ou comprar (eu diria ganhar) algum livro.

Mas acima de tudo guardo a lembrança de uma frase que escreveu para mim como dedicatória em um livro:

saber

“Francisco, saber é serviço”.

Que belo conselho. Trocaria aquelas aulas de hebraico e história, se fosse preciso, por essa pequenina, porém estrondosa frase.

Conhecimento que não redunde em práticas de misericórdia e amor é como o grão de trigo que não cai na terra. Pode ser um grão portentoso e vistoso, mas não frutifica.

Qual é o benefício em encher-se de tantos conhecimentos se não for para servir?

Qual a utilidade de profundos e elevados debates teológicos que não redundam em cuidado prático, em amor visível e palpável, em respeito, em preservar a consciência alheia, em santidade e interesse genuíno pelo outro?

Qual a razão de aprofundar-se em conhecimentos doutrinários se não for para melhor conhecer a Deus, deixar-se conduzir adequadamente pelas trilhas desta vida e instruir com mansidão os que resistem?

Os grandes pensadores e teólogos da história da igreja tinham essa abençoada característica, a de conjugar saber e serviço.

Agostinho, Calvino, Lutero, Edwards, Lloyd-Jones e tantos outros não foram meros pensadores de gabinete ou debatedores pedantes, foram homens comprometidos antes de tudo com servir a Deus e servir ao povo de Deus. Foram pastores que se deixaram gastar no cuidado daquela parte do rebanho de Jesus Cristo que lhes fora confiado. Faziam teologia naquele lugar em que é menor o risco de ela ser mera especulação academicista: no meio do povo, servindo.

Sou um grande entusiasta do engajamento intelectual dos cristãos. Tenho convicção de que devemos estar intelectualmente bem preparados, mas temo aquela aberração que é uma cabeça inchada e um coração mirrado. Um cabeção de repolho em um talinho de agrião que não lhe pode sustentar com equilíbrio.

Aprecio o estudo, ou antes, reconheço que ele é um elemento necessário à maturidade cristã. Entretanto, não entendo que deveríamos sentir vergonha por ainda não ter lido tal ou qual livro – exceto a Bíblia, mas deveríamos nos envergonhar profundamente quando podendo não visitamos um doente, não abraçamos o abatido ou levamos pão ao faminto, pior ainda se sequer orarmos por isso.

Saber é serviço. E a autoridade dessa frase não vem do saudoso professor, muito menos de mim, mas vem DELE, a quem devemos honra glória, ações de graça e obediência:

E vós também, pondo nisto mesmo toda a diligência, acrescentai à vossa fé a virtude, e à virtude a ciência, e à ciência a temperança, e à temperança a paciência, e à paciência a piedade, e à piedade o amor fraternal, e ao amor fraternal a caridade. Porque, se em vós houver e abundarem estas coisas, não vos deixarão ociosos nem estéreis no conhecimento de nosso Senhor Jesus Cristo. – 2 Pe 1:5-8

Campos de Boaz: colheita do que Cristo, o Boaz celestial, espalhou em Seus campos é um projeto cristão voluntário sob responsabilidade de Francisco Nunes.
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