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Convicções não-ortodoxas sobre o casamento gay e supostas doutrinas sexistas estão esvaziando as igrejas.

Por Charlotte Allen, editora de catolicismo do site www.beliefnet.com, autora do livro The human Christ: the search for the historical Jesus (“O Cristo humano: a busca pelo Jesus histórico”). Julho/2006.

Quando olhamos para as discussões e para a acelerada fragmentação da Igreja Episcopal nos EUA, da qual diversas paróquias, e até mesmo algumas dioceses, estão se desligando, não estamos falando apenas de bispos gays, da bênção de uniões entre pessoas do mesmo sexo ou da eleição de uma mulher como bispa presidente. Estamos falando também do desmantelamento da igreja cristã.

Abraçado pela liderança de todas as principais denominações protestantes, assim como por uma boa parte do Catolicismo nos EUA, o cristianismo liberal tem sido proclamado pelos seus entusiastas nos últimos 40 anos como o futuro da igreja cristã.

Ao contrário, como já admitem todos menos alguns poucos teimosos, todas as principais igrejas e movimentos interdenominacionais que relativizaram a doutrina e suavizaram princípios morais estão diminuindo em número e, no caso da Igreja Episcopal, desintegrando-se.

Não é apenas uma coincidência: Mais ou menos na mesma época em que os episcopais, na convenção geral de Columbus, Ohio, desdenhavam uma diretiva da Comunhão Anglicana Mundial que afirmava que a igreja estava “arrependida” de ter confirmado três anos antes a ordenação do bispo declaradamente gay V. Gene Robinson de New Hampshire, a Igreja Presbiteriana nos EUA, na sua assembléia geral em Birmingham, Alabama, tornou-se motivo de piada da blogosfera ao aprovar tacitamente designações alternativas para a supostamente sexista trindade cristã: Pai, Filho e Espírito Santo. Entre os nomes sugeridos constavam “Mãe, Filho/a e Ventre”, e “Pedra, Redentor/a e Amigo/a”[1]. Pegando o embalo dos revisionistas presbiterianos, o blogger Rod Dreher, do site www.beliefnet.com promoveu o concurso “Batize a Trindade”. Entre as respostas constavam “Pedra, Tesoura e Papel” e “Larry, Curly e Moe” (os Três Patetas).

Seguindo o exemplo dos episcopais, os presbiterianos também votaram a favor de deixar a critério das congregações locais a decisão de ordenar pastores gays e lésbicas que morassem com seu/sua parceiro/a, e endossaram a legalização da maconha para fins médicos. (Esta última decisão pode até ser uma boa idéia, mas é difícil entender por que uma denominação cristã deveria deliberar sobre isto).

A Igreja Presbiteriana dos EUA é famosa pela sua conferência de 1993, co-patrocinada pela Igreja Metodista Unida, a Igreja Evangélica Luterana na América e outras igrejas tradicionais, na qual os participantes “reimaginavam” Deus como “A Nossa Criadora Sofia” e praticavam um ritual feminista do “leite e mel”, com o objetivo de substituir a ceia tradicional do pão e do vinho.

Como se para disputar com os presbiterianos quem conseguia jogar fora mais elementos milenares da fé cristã, os Episcopais em Columbus surpreendentemente se recusaram até mesmo a considerar uma resolução que afirmava que Jesus Cristo é Senhor. Quando uma igreja cristã não consegue endossar uma declaração teológica básica encontrada diversas vezes no Novo Testamento, ela não é uma igreja cristã séria. Ela é uma Igreja da Moda, que dá uma licença de bem estar a qualquer coisa que os elementos liberais da sociedade secular considerem permissível ou politicamente correto.

Você quer fazer sexo gay? Mudar o nome de Deus para Sofia? Vá adiante. A recém-eleita bispa presidente episcopal, Katharine Jefferts Schori, é uma combinação única de todas essas coisas: Ela votou a favor de Robinson, abençoou uniões do mesmo sexo na diocese de Nevada, orou para um Jesus fêmea na convenção de Columbus, e convidou o antigo bispo de Newark, New Jersey, John Shelby Spong, famoso por negar a divindade de Cristo, para falar aos seus sacerdotes.

Quando uma igreja não se leva a sério, os seus membros também não a levam. É difícil acreditar que há tão pouco tempo, em 1960, membros das igrejas tradicionais – Episcopais, Presbiterianos, Metodistas, Luteranos e assim por diante – representavam 40% de todos os protestantes estadunidenses. Hoje, está mais para 12% (17 milhões entre 135 milhões). Uma parte do declínio acelerado se deve à queda das taxas de natalidade entre os tradicionais, geralmente democratas, mas também é óbvio que milhões de cristãos tradicionais (e especialmente os seus filhos) simplesmente abandonaram os bancos da igreja para nunca mais voltar. De acordo com o Instituto Hartford para a Pesquisa da Religião, em 1965 haviam 3,4 milhões de episcopais; hoje, são 2,3 milhões. O número de presbiterianos caiu de 4,3 milhões em 1965 para 2,5 milhões hoje. Compare isso com os 16 milhões de membros que os Batistas do Sul oficialmente têm.

Quando uma religião diz “tanto faz” para as questões doutrinárias, considera Jesus como apenas mais um mestre sábio, recusa-se por princípio a evangelizar e deixa os seus membros fazerem praticamente o que quiserem, é apenas um pequeno passo até eles decidirem que uma das coisas que eles não querem fazer é levantar domingo de manhã e ir para a igreja.

O sociólogo Rodney Stark (The Rise of Christianity) e o historiador Philip Jenkins (The Next Christendom) defendem que quanto maiores as demandas éticas e doutrinárias mais profundo é o compromisso dos fiéis a uma fé. As igrejas evangélicas e pentecostais, que pregam a moralidade bíblica, não têm nenhum problema em afirmar que Jesus é o Senhor, e geralmente evitam ordenar mulheres. Essas igrejas estão crescendo firmemente, tanto nos Estados Unidos quanto no resto do mundo.

Apesar da freqüência dominical média a uma igreja episcopal ser de 80 pessoas, a Igreja Episcopal, como um todo, tem condições financeiras para continuar por algum tempo, graças ao seu inventário de terras, fruto dos seus anos dourados, e à renda proveniente dos dias (passados!) em que ela era o Partido Republicano em oração. Alem do mais, ela tem compensado algumas de suas perdas atraindo católicos liberais desafetos e gays e lésbicas. A situação da menos endinheirada Igreja Presbiteriana dos EUA é mais complicada. Logo antes da sua assembléia geral em Birmingham, ela anunciou que cortaria 75 empregos para conseguir uma redução orçamentária de US$9,15 milhões no seu escritório central, o terceiro corte de empregos nos últimos quatro anos.

Os episcopais têm perfumes, sinos, almofadas rendadas e bispos coloridos e ornamentados, do tipo católico, como atrativos. Mas quem, nas atuais circunstâncias, quer virar presbiteriano?

Ainda assim, deve ser humilhante para os liberais episcopais o fato de muitas das paróquias e dioceses que querem se desligar da Igreja Episcopal nos EUA (incluindo a de San Joaquin, na Califórnia) estão crescendo, e não diminuindo, têm membros ativos nos seus bancos, que pagam pela manutenção das suas igrejas e não ficam na dependência de ricos defuntos. A Igreja Episcopal de Cristo, em Plano, Texas, de 21 anos, por exemplo, é uma das maiores igrejas episcopais no país. As 2.200 pessoas que freqüentam os seus cultos todos os domingos equivalem mais ou menos ao número de episcopais ativos em toda a diocese de Nevada, sob o comando de Jefferts Schori.

Não é nenhuma surpresa a Igreja de Cristo, assim como outras paróquias dissidentes, pregar uma teologia bastante conservadora. A sua ruptura da igreja nacional veio depois de Rowan Williams, arcebispo de Cantuária e chefe da Comunhão Anglicana, propor uma estrutura em dois níveis de membresia, na qual a Igreja Episcopal nos EUA e outras igrejas que se negam a aderir a padrões bíblicos tradicionais teriam um status de “associados” na Comunhão. Os dissidentes esperam manter a comunicação plena com Cantuária ao se submeterem à supervisão de bispos anglicanos não estadunidenses.

Quanto ao resto dos Episcopais, eles nos lembram a expressão “rearranjar as cadeiras no convés do Titanic”. Vários sites episcopais liberais hoje são dedicados a ofender Peter Akinola, eloqüente primaz da diocese anglicana da Nigéria que, assim como a vasta maioria dos 77 milhões de anglicanos no mundo – de acordo com dados da Comunhão Anglicana – acredita que “as práticas homossexuais” são “incompatíveis com as Escrituras” (essas palavras são da resolução de 1998 da Comunhão, na conferência dos bispos em Lambeth). Akinola pode ter a maioria ao seu lado, mas ele é agora o Voldemort – não, melhor, o Karl Rove[2] – do mundo episcopal estadunidense. Outros liberais estão irados com uma simples resolução de última hora de Columbus, pedindo que a igreja “se restrinja” de consagrar bispos cujo estilo de vida possa ofender “a igreja maior” – uma resolução imediatamente ignorada quando um segundo homem gay, que mora publicamente com outro homem, foi nominado bispo de Newark.

Então esse é o cristianismo liberal que era para ser o cristianismo do futuro: confusão, cismas, queda vertiginosa do número de membros, um colapso da cristologia e encontros nacionais que competem com os da Modern Language Association (“Associação da Língua Moderna”) para ver quem tem maior potencial de piadas. E eles continuam dizendo para a Igreja Católica que é melhor ela adotar o programa liberal – ordenar mulheres, abençoar casamentos gays, e assim por diante – ou morrer. Tá bom, então…

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[1] Nota do Tradutor: No original em inglês, não há designação de gêneros nos termos usados.
[2] Nota do Tradutor: Voldemort é o arquiinimigo do Harry Potter. Karl Rove é “Deputy Chief of Staff” do governo George W. Bush.

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