“Mas chegastes ao monte Sião, e à cidade do Deus vivo, à Jerusalém celestial, e aos muitos milhares de anjos” (Hb 12.22).

Durante o reino de Cristo na terra, Jerusalém, a “cidade do grande Rei” será sua metrópole terrena e o centro do mundo. Mas nas regiões celestiais haverá outra “cidade”, da qual aquela na terra é apenas um reflexo. Naquela região onde a essência do ser é espírito, Deus terá uma metrópole espiritual, sendo Ele mesmo o arquiteto que desenhou e o construtor que a edificou (Hb 11.10). E as pessoas da igreja dos primogênitos, espíritos aperfeiçoados habitando corpos espirituais incorruptíveis, formarão aquele lugar de habitação de Deus.

Durante a visão de Apocalipse, João ouvira uma grande multidão no céu regozijando-se porque a hora havia chegado para o tão esperado casamento do Cordeiro, mas ele ainda não havia visto a Noiva. E pode ser que, à medida que as poderosas visões progrediam, e a era milenar passava para o estado eterno, ele interiormente estranhasse tal omissão. Mas, depois que tudo fora mostrado a ele, a Noiva foi revelada para seu olhar extasiado, pois ele diz: “E veio um dos sete anjos que tinham as sete taças cheias das sete últimas pragas, e falou comigo dizendo: Vem, mostrar-te-ei a noiva, a esposa do Cordeiro. E levou-me em espírito a um grande e alto monte e mostrou-me” – mostrou-me o quê? Uma noiva? Não – “uma cidade, a santa cidade de Jerusalém” (Ap 21.9,10).

Então, a “cidade” é a “noiva”, e visto que a última é figura de uma companhia de pessoas, a primeira também o é. A afirmativa de que a “cidade” é uma interpretação da figura de linguagem “noiva” não tem fundamento na passagem. O anjo não disse a João: “Vou interpretar ou explicar para você a metáfora da noiva”; porém, ele disse: “Mostrar-te-ei a noiva”, isto é,“vou te dar uma visão dela”. Assim “a cidade” é uma segunda visão em símbolo da mesma companhia da qual a “noiva” era o símbolo anterior. Tal duplicação de metáforas oriental é comum na Escritura. A figura da noiva não era mais adequada para revelar a glória da Igreja, nem seu mais elevado ofício como o lugar de habitação de Deus num universo reconciliado, do qual todos os ímpios haviam sido banidos. Por isso a cidade entra em cena; e a natureza, a arte e a linguagem se esgotam para descrever seu esplendor.

Ao interpretar a visão, um erro é particularmente comum, a saber: falar da cidade como sendo um lugar no qual todos os membros da igreja de Deus entrarão e serão abençoados. Essa noção efetivamente impede qualquer entendimento correto do assunto. A noiva, isto é, a igreja celestial glorificada dos primogênitos é a cidade. Outros salvos entram por suas portas; estes a compõem.
Pode ser difícil especificar um sentido exato para cada um dos detalhes dados, mas as principais características descritas prontamente oferecem seu ensino.

  1.  Em Seus santos celestiais, Deus habitará tão pessoalmente e estará presente de modo tão real, que eles serão para Ele o que uma cidade-capital era para um monarca: um lugar de residência, um cenário para a demonstração de Sua majestade, um lugar a que Seus súditos poderão vir para negociação com Ele e um centro de governo ao redor do qual a vida corporativa do império pode girar.
  2. “E o muro da cidade tinha doze fundamentos, e neles estavam os nomes dos doze apóstolos do Cordeiro” (21.14). Para os membros da igreja, esse não era um pensamento novo, pois lhes fora ensinado anteriormente que eles, como um corpo coletivo, eram “edificados sobre o fundamento dos apóstolos e profetas” (Ef 2.20). Historicamente, é sobre a pregação, o ensino, o labor e os sofrimentos dos apóstolos que a igreja é edificada; e de seus ensinos Cristo Jesus mesmo era o tema todo proeminente (a principal “pedra de esquina”), unindo o fundamento e proporcionando unidade e estabilidade ao edifício.
  3. “As nações andarão à sua luz; e os reis da terra trarão para ela a sua glória” (Ap 21.24). Será sob a direção beneficente dos santos celestiais que as nações, por tanto tempo separadas“da vida de Deus pela ignorância que há” nelas (Ef 4.18), aprenderão a andar em Seu temor; e elas, por sua vez, honrarão estes que são assim a causa da sua eterna bênção.
  4. Mas assim como será por reconhecerem a Israel como a principal nação sobre a terra pela vontade de Deus, é que os gentios reconhecerão a soberania de Deus. Portanto, por meio de Israel como intermediário é que eles desfrutarão das bênçãos dispensadas por meio da igreja; e por isso, nos portais da cidade está escrito o nome das doze tribos de Israel. Para os gentios, o meio de acesso às bênçãos celestiais será honrando a Israel (Is 14.2; 49.22,23; 60.12; 66.20; 66.20; Sf 3.10; Zc 8.20-23). Seria tão irracional “espiritualizar” o Israel literal desta figura (Ap 21.12) como “espiritualizar” os doze apóstolos do Cordeiro que são mencionados em seguida (v. 14).
  5. O Espírito Santo de Deus fluirá assim através da igreja para a vivificação de todos, conforme a figura do rio da água da vida; e será em resposta à obediência que os povos terão seus benefícios do Rio, pois este procede do trono de Deus e do Cordeiro.
  6. Na Jerusalém terrena dois montes são proeminentes: o monte Moriá e o monte Sião. O monte Moriá foi coroado com o templo de Salomão; porém, na Jerusalém celestial não é visto templo algum (v. 22), pois Deus não mais habita oculto atrás de um véu, visto que o Calvário tornou possível Sua habitação com os homens (21.3). Mas o monte Sião é fundado em Sua esfera eterna. Naquele monte, na cidade terrena, ficava o palácio de Davi (2Sm 5.7-9) e era a suprema corte de justiça para o reino, pois “ali estão postos os tronos e juízo, os tronos da casa de Davi” (Sl 122.5). Não um trono, mas tronos são mencionados. Quão preciso é o quadro profético das coisas que ainda hão de acontecer; pois Cristo, o Filho de Davi, associará consigo mesmo, em Seu ofício real, aqueles que foram considerados dignos de Seu chamamento e alcançaram este pináculo de honra, para reinar com Ele para todo o sempre (Ap 22.5). E, assim como muitos habitavam em Jerusalém e poucos comparativamente no monte Sião, não há aqui novamente a indicação de que os que hão de alcançar a bem- aventurança da “cidade” serão em número muito maior do que aqueles que serão coroados de honra e reinarão num trono no monte Sião? “Uma estrela”, mesmo sendo uma estrela de verdade, isto é, um ser celestial, “difere em glória de outra estrela” (1Co 15.41).

Daquele estado glorioso, eterno e supremo é declarada uma sétupla perfeição (Ap 22.3-5): “Ali não haverá mais maldição” – bênção e perfeição plenas –; “nela estará o trono de Deus e do Cordeiro” – governo perfeito –; “e os seus servos o servirão” – serviço perfeito –; “e verão a sua face” – comunhão perfeita –; “e nas sua frontes estará o seu nome” – semelhança e identificação perfeitas –; “e ali não haverá mais noite” – conhecimento e força perfeitos –; “e reinarão pelos séculos dos séculos” – glória perfeita.

Fonte: extinta revista A Palavra Profética , nº 4 – A Noiva de Cristo – 1989. Fonte da imagem Revisado por Francisco Nunes. Este artigo pode ser distribuído e usado livremente, desde que não haja alteração no texto, sejam mantidas as informações de autoria e de tradução e seja exclusivamente para uso gratuito. Preferencialmente, não o copie em seu sítio ou blog, mas coloque lá um link que aponte para o artigo.
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