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Para John Fleming, Conselheiro de Leith [1]

Aberdeen, 15 de março de 1637

Orientações para a conduta cristã

Eu gostaria de satisfazer os teus desejos, fazendo e estruturando para ti um Diretório [2] Cristão. Mas os eruditos já o fizeram antes de mim, de modo muito mais criterioso do que eu poderia; especialmente os senhores Rogers, Grennham e Perkins. [3] No entanto, eu te mostrarei o que eu teria feito, embora nunca tenha conseguido alcançar meus propósitos.

  1. Que horas do dia, ou mais, ou menos horas, para a Palavra e a oração, sejam oferecidas a Deus, não poupando a décima segunda hora, ou o meio-dia, embora aí haja um tempo mais curto.
  2. Em meio às tarefas do mundo, deve-se pensar sobre o pecado, o julgamento, a morte e a eternidade, com uma ou duas palavras (no mínimo) de rápida oração a Deus.
  3. Cuida para não teres um coração disperso nas orações a sós.
  4. Não ajas de má vontade, embora possas sair da oração sem a sensação de alegria. Ter desânimo, sensação de culpa e fome é, às vezes, muito bom para nós.
  5. Que o Dia do Senhor, da manhã à noite, seja gasto sempre em oração privada ou em adoração pública.
  6. Que as palavras sejam cumpridas; pensamentos dispersivos ou ociosos sejam evitados; que a raiva repentina ou o desejo de vingança, mesmo que sejam por perseguição da verdade, sejam impedidos; pois muitas vezes confundimos nosso zelo com nosso próprio fogo selvagem.
  7. Que pecados conhecidos, descobertos e revelados contra a consciência sejam evitados, pois são preparativos muito perigosos para levarem à dureza do coração.
  8. Que, em tratando com homens, em acordos e trocas, sejam consideradas a fé e a verdade; que tratemos com todos os homens com sinceridade; que tenhamos consciência das palavras fúteis e mentirosas; e que nossa postura seja tal que, quando outros a virem, possam falar honrosamente de nosso doce Mestre e daquilo que professamos.
Eu tenho sido muito desafiado,
  1. Por não ter atribuído tudo a Deus, como o propósito último, pois eu não como, bebo, durmo, me locomovo, falo ou penso para Deus.
  2. Pois eu não tirei proveito das boas companhias; e porque eu não deixei uma palavra de convicção para os homens naturais e ímpios, tal como reprovando suas palavras torpes; ou por ter sido uma testemunha silenciosa de seu comportamento permissivo; e porque eu não pretendi, em todas as companhias, fazer o bem.
  3. Pois os infortúnios e as calamidades da igreja, e de certos mestres, não têm me abalado.
  4. Pois lendo a vida de Davi, Paulo, e outros como eles, quando isso me humilhava, eu, não alcançando a sua santidade, não me fazia imitá-los, ficando longe, pelo menos, segundo a medida da graça de Deus.
  5. Pois os pecados da mocidade, que não sofreram arrependimento, não foram revistos nem houve tristeza por eles.
  6. Pois repentinos arroubos de orgulho, luxúria, vingança e amor pelas honrarias não foram resistidos nem lamentados.
  7. Pois a minha caridade era fria.
  8. Pois as experiências que eu tive de Deus me ouvir, neste ou naquele particular, sendo reunidas, mesmo assim, em um novo problema, eu sempre (ou pelo menos uma vez) tinha de buscar por minha fé, como se eu estivesse iniciando do A, B, C, outra vez.
  9. Pois eu não tenha ousadamente contradito os inimigos que falavam contra a verdade, quer fosse em público nas reuniões da igreja, ou à mesa ou em conferências comuns.
  10. Pois, em grandes dificuldades, eu tenha recebido relatórios falsos sobre o amor de Cristo e não confiei Nele em Suas punições; embora o próprio evento dissesse que tudo havia sido pela graça.
  11. Nada me comove mais e pesa em minha alma, do que nunca ter podido, em minha prosperidade, lutar tanto em oração com Deus, nem ser tão morto para o mundo, ou estar tão ávido e doente de amor por Cristo, pensar tanto no céu, do que quando o peso de dez pedras de uma pesada cruz estava sobre mim.
  12. Que da cruz tenham saído votos de nova obediência, que a comodidade jogou longe, como o vento faz com a palha.
  13. Que a prática era tão curta e estreita, e a luz, tão longa e ampla.
  14. Que não meditei freqüentemente sobre a morte.
  15. Que não tenho tido o cuidado de ganhar outros para Cristo.
  16. Que a graça e os dons que tenho tragam pouca ou nenhuma gratidão.
Há, também, algumas coisas que me ajudaram, tais como:
  1. Eu fui beneficiado por fazer sozinho uma longa viagem, dedicando aquele tempo à oração;
  2. Pela abstinência, e dedicando dias a Deus;
  3. Por orar por outros; pois, em fazendo uma tarefa para Deus por eles, eu obtive algo para mim mesmo.
  4. Eu realmente confirmei, em muitas ocasiões, que Deus ouve orações; e, portanto, eu orava por qualquer coisa, por menor que fosse sua importância.
  5. Ele me capacitou a não ter dúvidas que esse caminho, que é zombado e ridicularizado, é o único caminho para o céu.
Caro senhor, estas e muitas outras ocorrências em minha vida devem conduzir a:
  1. Ter cuidado com pensamentos ateístas, tais como: “Será que há um Deus no céu?”, que, às vezes, trarão problemas e surpresas aos melhores.
  2. Ter cuidado acima de tudo do crescimento em graça; e deve-se lamentar o abandonar o primeiro amor.
  3. Ter a consciência de orar pelos inimigos que estão cegos. Eu ainda me envergonho com a bondade de Cristo para um pecador como eu. Ele deixou um fogo em meu coração sobre o qual o inferno não pode jogar água, nem apagar ou extinguir.

[1] John Fleming, Conselheiro de Leith, foi um comerciante escocês de madeira que auxiliou Rutherford em dias de dificuldade e supriu-o para atender suas necessidades.
[2] Termo adotado da linguagem jurídica, refere-se a um documento com instruções para orientar a pessoa em qualquer assunto ou negócio.
[3] Daniel Rogers (1573–1652), clérigo não-conformista inglês, sofreu sob a perseguição dos puritanos ligados ao movimento do arcebispo William Laud, que rejeitava a predestinação. Richard Greenham (1535?–1594?), clérigo inglês de importante influência no movimento puritano na Inglaterra. William Perkins (1558–1602), clérigo e teólogo inglês, um dos maiores líderes do puritanismo na Igreja da Inglaterra.

 

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Traduzido por Luiz Alcântara de The letters of Samuel Rutherford (1600–1661), p. 11. Revisado por Francisco Nunes. Este artigo pode ser distribuído e usado livremente, desde que não haja alteração no texto, sejam mantidas as informações de autoria e de tradução e seja exclusivamente para uso gratuito. Preferencialmente, não o copie em seu sítio ou blog, mas coloque lá um link que aponte para o artigo. Ao compartilhar nossos artigos e/ou imagens, por favor, não os altere.
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