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Apesar de não lê-lo nesse momento, usaremos o livro de Josué como referência à medida que prosseguirmos.

O final do caminho

É necessário vislumbrar o objetivo final logo no início da jornada, antes mesmo de considerar o caminho para chegar até lá. Iniciamos por observar que Deus começou com os céus e, então, prosseguiu para a Terra, e que no final da Bíblia aquilo que desce do céu indica a consumação de todo o processo de Suas atividades através dos tempos. Desse modo, no fim teremos uma expressão completa e plena daquilo que é celestial. Esse é o fim. Dissemos inicialmente que os céus governam tudo. Como ocorre na natureza, também acontece nas coisas do Espírito. Tudo é governado pelos céus, e a Terra e tudo o que é terrenal deve considerar aquilo que é celestial e a isso responder.

Entenda isso como uma verdade espiritual. Aquilo que é verdadeiro na esfera da criação natural é simplesmente uma expressão da mente espiritual de Deus. E isso significa que, assim como este mundo, esta Terra, é governado e controlado por forças celestiais e corpos celestes, de tal modo que, se ele escapasse do correto ajuste ou relacionamento com esses corpos, se desintegraria, congelaria, queimaria, deixaria de funcionar como um todo orgânico. O mesmo ocorre na esfera espiritual. A Bíblia toda indica este fato: que tudo o que temos aqui se relaciona com o que está no céu, e que tudo tem origem no céu, devendo responder e se ajustar a ele. Eu me refiro a tudo em nossa vida, pois o Espírito Santo, tendo descido do céu, é o elo entre o que está aqui e o que está lá.

Essas não são apenas idéias abstratas, mas são os fatores que estão por trás de tudo o que temos da revelação Divina nas Escrituras. Toda a Bíblia, do primeiro ao último versículo, pode ser resumida nisto: que o céu está desafiando esta Terra, e esta Terra deve responder ao céu. Isso abrange inúmeros detalhes, mas é um fato: o fim de todas as coisas resultará simplesmente na plena concretização do céu na criação e, especialmente de forma espiritual, no povo de Deus. Essa é a visão inicial do objetivo final.

Mas devemos notar outra verdade governante em relação a esse fim. Vou primeiramente abrir um parêntese para dizer uma coisa. Algumas dessas frases nos são muito familiares, e sempre temo que a familiaridade com a fraseologia possa tirar-nos um pouco do foco. Vamos pausar para compreender a força da expressão “verdade governante”. Quando estamos debaixo do governo de uma lei, não poderemos escapar dela. Temos as leis da natureza em nosso corpo, neste mundo. Elas estão aqui, e, se as desrespeitarmos, isso não as tira de operação. Descobriremos, no longo prazo, que elas nos destruirão, elas nos alcançarão. Mas, se entrarmos em consonância com elas, então, essas leis serão nossa salvação, nossa vida. Elas estão “governando”, quer isso nos agrade ou não. Assim, “tudo o que o homem semear, isso também ceifará” (Gl 6.7). Essa é uma lei, e dela não escaparemos. Existem inúmeras leis assim. Portanto, quando falamos de uma lei ou verdade “governante”, referimo-nos a algo que devemos conhecer e a que temos de obedecer, pois foi estabelecido por Deus em Seu universo.

Deus escolhe soberanamente Seus vasos

Vamos, então, seguir para a próxima verdade governante relacionada ao objetivo final de Deus: que Ele escolhe vasos, tanto individuais como coletivos, ou corporativos, conduzindo-os soberanamente, de maneira peculiar, a uma relação com Seu objetivo pleno, e faz isso realizando neles aquilo que deseja obter em um grupo muito maior. O Senhor soberanamente escolhe vasos – sejam indivíduos ou grupos de pessoas, conforme é amplamente indicado na Bíblia – e, então, Ele começa a trabalhar com esses vasos a fim de fazer algo extraordinário, de maneira muito completa, para que alcance muitos outros por meio desse processo que faz nos vasos que elegeu. Esta é uma verdade governante: Ele faz algo em um vaso eleito, que está destinado a uma abrangência bem maior.

Valores representativos

Vamos então fazer uma pausa, porque sempre precisamos ajustar nossa inclinação mental. Pode ser que muitos, ao ler essas linhas, digam: “Bem, não consigo me ver como um vaso eleito, dessa maneira específica”. Nós pensamos naqueles homens a quem nos referimos como os pioneiros deste caminho celestial: Abraão, Moisés e outros. Então, afirmamos: “Não sou um Moisés ou um Abraão; não vejo como me encaixar nessa categoria”.

Bem, embora possa haver entre nós indivíduos escolhidos por Deus para algo dessa natureza extraordinária, existe outro lado: podemos ser parte de um vaso coletivo ou corporativo. Poderia até ir mais longe, afirmando que provavelmente somos. Então, se o Senhor o tomou e implantou em você esse senso de destino, essa convicção de ter sido chamado para algo maior do que apenas “ser cristão”, esse forte senso de vocação, se isso estiver em você, pode se considerar relacionado a um propósito maior. Se isso for verdade, não considere suas experiências e seu relacionamento com Deus individualmente, de forma pessoal, como se você fosse muito especial.

Deixe-me explicar isso de outra forma. Você pode estar passando por situações que se relacionam a algo que Deus está fazendo em um vaso coletivo sem perceber como o significado do que está passando tem relação com sua vida individual e pessoal. “Por que estou passando por isso?” Bem, a resposta é: porque você é parte de um todo. Freqüentemente, sentimos que uma grande pressão é colocada sobre nós como indivíduos. Quando começamos a comparar nossas anotações sobre isso, descobrimos que outras pessoas espiritualmente relacionadas a nós estão passando pela mesma experiência. Esta é a grande lei do Corpo: “Se um membro sofre, todos os membros sofrem com ele” (1Co 12.26). Mas, o que isso quer dizer?

Veja, trata-se de algo coletivo, corporativo; e, embora não possamos acompanhar tudo para ver como as coisas estão se desenrolando, Deus está fazendo algo de uma maneira relacionada, e nós fazemos parte dela. Estamos sofrendo o impacto de algo muito maior. Esse relacionamento espiritual nos envolve nesse propósito maior de Deus, que se relaciona aos lugares celestiais, é muito maior do que esta Terra. É isso que nos faz um. Nossa unidade não se deriva de uma associação com alguma coisa, de ter nosso nome em um rol de membros ou de sermos reconhecidos publicamente como membros de determinado grupo. Não é isso. Podemos estar a centenas ou a milhares de quilômetros de distância, afastados, e ainda assim sentir as repercussões, porque estamos ligados a essa coisa celestial que Deus está fazendo. Isso porque, quando estamos na esfera celestial, todas as coisas terrenas saem de cena: geografia, distâncias e tempo se vão. Essas coisas não são lá de cima.

Se ao menos pudéssemos receber a concepção celestial da Igreja! Oh, quão tolas são nossas concepções terrenas da Igreja! Quando tratamos daquilo que chamamos Igreja, devemos sair desta Terra e de tudo o que aqui está. Perceberemos que tudo se resume apenas a uma unidade no céu. Tudo isso que temos aqui não tem correspondência lá. Esse é o ponto onde paramos quando falamos sobre a passagem do Jordão no último capítulo. No Jordão, algo foi deixado para trás. O povo se mudou da base terrena para a base celestial. Falaremos mais disso a seguir. Essa deve ser uma realidade espiritual, uma consciência na qual entramos.

Embora não possamos explicar e entender por que podemos estar passando por um momento tão ruim, a explicação celestial é que estamos envolvidos em algo relacionado ao propósito maior de Deus, e estamos sofrendo, ou passando por essa experiência de uma maneira relacionada.

Isso é muito maravilhoso, pois de vez em quando encontramos outras pessoas com quem desfrutamos de comunhão espiritual e descobrimos que elas têm passado exatamente pela mesma experiência. O Senhor tem falado a elas e feito algo com elas, que não é comum ou usual, mas é algo muito especial.

Valores intrínsecos

Como mencionamos anteriormente, tudo isso está relacionado com o fato de que Deus escolhe vasos individuais ou coletivos e faz neles algo destinado a um grupo muito maior. Esses vasos, sejam eles individuais ou coletivos, são representativos de algo que Deus busca em maior e mais ampla escala, em uma esfera mais ampla. Tudo tem início neles. Acho que é isso que Paulo tinha em mente quando disse: “Para que em mim, que sou o principal [o primeiro] […] para exemplo” (1Tm 1.16). Acredito que Paulo quis dizer que aquilo que Deus faria por meio dele seria algo representativo. Tudo aquilo que o Senhor faria por meio dele em esferas mais amplas, nas igrejas, nas províncias e nas nações, seria representativo, simbólico. Deus iria operar em uma escala mais ampla por meio desse homem realizando algo nele, não apenas concedendo a ele palavras para compartilhar.

É aí que costumamos nos perder. Deus começa fazendo algo. Ele traz à existência, em um vaso, uma representação viva de Seu pensamento mais pleno, usando para isso meios peculiares, incomuns e extraordinários. Veremos poucas experiências comuns da vida desse vaso; pelo contrário, suas experiências terão um caráter extraordinário, incomum. Esses vasos representativos, individuais ou coletivos, são escolhidos para que neles sejam estabelecidos valores intrínsecos e essenciais, destinados a uma esfera e a um reino mais amplos. Tudo deve ser passível de expansão, de disseminação, de amplo alargamento e extensão.

Em química, chamamos isso de “tintura-mãe”, uma substância que pode ser ampliada e distribuída; é uma essência pura e concentrada. Mas produzir esses valores intrínsecos e concentrados em qualquer vaso é um trabalho extraordinário. Não haverá nada de comum nesse processo. Alguns de vocês entenderão isso a partir da própria experiência. Os tratos de Deus com vocês não são nada comuns. Às vezes acreditamos que essa concentração é forte demais em nossa experiência! Nós nos questionamos se conseguiremos passar por esse trato específico do Senhor conosco.

Estou tentando permanecer bem próximo da Bíblia. Não pense que estou falando de algo que não está contido ali. Faço referência ao pano de fundo daquilo que está revelado na Palavra de Deus. Esta foi a experiência de Abraão: uma experiência incomum, uma forte concentração de Deus sobre esse homem. Pense na numerosa multidão que derivou seus valores de Abraão. Mas ele chegou ao limite mais de uma vez, chegando a um ponto onde não poderia mais suportar. E nessas horas Deus precisou intervir para levá-lo adiante. O valor intrínseco celestial é a prova mais difícil que alguém pode atravessar.

Em nossa natureza, somos totalmente terrenos, em todos os sentidos. Temos necessidade de ver as coisas – isso é terrenal. Temos necessidade de sentir coisas – isso é terrenal. Desejamos todas as evidências – precisamos de tantas coisas terrenas. Mas Deus nos tira dessa Terra, arrebata-nos daqui – refiro-me a um aspecto espiritual – e nos suspende, por assim dizer, em pleno ar. Esse é um tipo de existência muito precário, extremamente penoso. Não sabemos onde estamos, não temos as explicações, não conseguimos firmar solidamente os pés no chão nem sentir que temos certeza de coisa alguma. Deus está desestabilizando todas as nossas faculdades de análise e interpretação, e tornando absolutamente necessário possuir outro tipo de sabedoria e entendimento que não pertencem, de modo algum, a essa Terra ou ao mundo ou ao homem natural. Trata-se de algo celestial. Essa foi a experiência desses pioneiros do caminho celestial. Ouça-os clamando de sua natureza terrena, às vezes até murmurando com o Senhor. Ouça Jeremias, veja tudo aquilo estava além da sua compreensão. Deus buscava valores intrínsecos intensivos ali.

Ministério espontâneo

Prosseguindo um pouco mais, temos o ministério espontâneo. Grifo a palavra espontâneo, pois não me refiro a um ministério organizado. Quando o ministério é dessa natureza, só precisaremos ser, e tudo acontecerá. Vocês me entendem? As coisas acontecem naturalmente, se formos espontâneos. Assim como não podemos apagar o Sol, não poderemos silenciar esse ministério.

Era isso que o Senhor Jesus buscava no início de Seu ministério. Em primeiro lugar, Ele tomou um grupo de homens, de indivíduos, e os conduziu a um processo. Nem tudo ocorreu de forma tão simples como lemos na história. Podemos ler nos Evangelhos os registros do período que cobre a história de três anos de companheirismo do Senhor com aqueles discípulos, e também podemos ler a respeito daqueles últimos dias do Senhor na Terra e, então, da Sua Cruz. Bem, só essa história já é extraordinária, mas não temos o registro de tudo o que se passou no interior daqueles homens, pois não seria possível registrar isso. Ao longo daqueles três anos, atrevo-me a dizer que eles foram repetidamente conduzidos ao fim dos próprios recursos: não sabiam onde estavam, para onde iam e o que tudo aquilo representava. Eles freqüentemente tentavam compreender as coisas a partir de seus próprios conceitos, de sua mentalidade, interpretando os fatos à luz da profecia, e assim por diante. Tentavam decifrar as coisas e adaptá-las a seu manual de instruções. Entretanto, o Senhor continuamente os desafiava; era para eles um contínuo enigma, um Homem impossível de perscrutar. O Senhor nunca fez coisas de acordo com o manual, nem mesmo de acordo com Moisés. Ele transtornou todas aquelas coisas. O que o Senhor estava fazendo? O que Ele queria dizer com tudo aquilo?

E, então, temos a Cruz. Não podemos compreender plenamente por meio da leitura a profundidade da angústia e da perplexidade da alma deles naqueles dias. Só poderemos compreender essas coisas por meio de nossa própria experiência, quando o Senhor começar a fazer coisas como essas conosco: tirando-nos de nossa zona de conforto e contradizendo todas as nossas expectativas, parecendo tomar o sentido extremamente oposto do que esperávamos ter o direito de esperar Dele. Ele não faz as coisas dentro de nossas expectativas. Às vezes, nós nos sentimos acuados e sem saída nesses tratos do Senhor conosco. O Senhor tomou aqueles homens para Si e os conduziu a tudo isso por meio de uma experiência muito profunda.

E, por meio daqueles homens, o Senhor obteve igrejas, obteve grupos de crentes, e a coisa toda começou. Existe um tipo peculiar de disciplina e treinamento relacionado à vida corporativa, quando deixamos de ser tratados individualmente, mesmo como cristão, e passamos a viver uma vida conjunta, entrando em um relacionamento com outros crentes e vivendo uma vida corporativa, uma vida celestial na Terra. O Novo Testamento nos mostra que isso não é nada fácil. Podemos pensar, olhando objetivamente, que é adorável ser parte de uma assembléia, mas nem sempre é. Esse grupo aqui pode estar passando por tal coisa. Algo está acontecendo, existe um agir de Deus ali que às vezes é tão profundo e terrível que é impossível de compreender o que Ele quer com aquilo; ainda assim todos o percebemos.

Esse caminho é profundo, cheio de sofrimento, e juntos passamos por essas dores de parto, como assembléia. Assim nasceram aquelas igrejas, e elas passaram por tudo isso. Eles também receberam instrução, mas, independente de tudo que receberam na forma de instrução e ensino, havia sempre a paralela e correspondente disciplina do Espírito Santo. O Espírito Santo sustentava Sua mão sobre elas e tratava com elas de forma drástica. Coisas estavam acontecendo.

Você pode me pedir um exemplo. Observe todos os acontecimentos em Corinto. O que Paulo disse aos cristãos ali? “Por causa disto há entre vós muitos fracos e doentes, e muitos que dormem [que morreram]” (1Co 11.30). Vemos ali uma história espiritual secreta. O Espírito Santo assumira o controle da situação. Provavelmente eles viam as coisas pela ótica natural. “Alguém está doente, chamem o médico.” Mas, espere: será que existe algum fator espiritual atrelado a isso? Será que isso não tem alguma relação com o Espírito Santo? Paulo diz: “Sim!” Isso não significa que todo mundo que está doente tenha alguma falta no sentido espiritual, mas o princípio está aí. A Igreja está sendo tratada pelo Espírito Santo em relação ao propósito pleno de Deus.

O ponto é muito claro. Deus toma primeiro os indivíduos e depois as assembléias, e Ele estabelece esse ministério espontâneo fazendo algo nas pessoas, não somente concedendo a elas uma mensagem ou uma verdade. Tudo apenas acontece, e isso é tudo. As coisas acontecem de forma inexplicável, e tudo que poderemos dizer é que o Espírito Santo tomou aquilo e está o usando. Ele mesmo se encarrega da expansão daquilo que fez, Ele amplifica o alcance. Tudo apenas acontece. Paulo disse a respeito da igreja em Tessalônica: “Por vós soou a palavra do Senhor, não somente na Macedônia e na Acaia, mas também em todos os lugares” (1Ts 1.8). Será que isso significa necessariamente que eles enviaram evangelistas? Eles podem ter feito isso, mas não é isso que o texto diz. Observe o contexto. Paulo está dizendo: “Em todo lugar as outras igrejas falam sobre vocês; eu nem preciso fazer isso – todos conhecem vocês.” Esse é o ministério espontâneo que brota de algo que Deus fez. Deus toma as coisas em Sua mãos para obter esses valores intrínsecos, e Ele não irá desperdiçá-los.

Assim, o propósito almejado por Deus governa todos os Seus tratos com Seus instrumentos. A plenitude celestial é Seu propósito final e motiva todos os Seus tratos com os vasos que Ele escolheu em relação àquele fim. Ele os está conduzindo à plenitude celestial.

Devemos perceber que nada que Deus faz é um fim em si mesmo. A conversão não é um fim em si mesma. É trágico considerá-la assim e se acomodar e se satisfazer só com ela. Contente-se com a conversão apenas e em breve verá o que lhe acontecerá. O que resultará disso? Todo o senso de propósito será apagado, toda a vitalidade da conversão diminuirá ao ponto de haver apenas um monte de pessoas convertidas. Elas são convertidas; elas creram no Senhor Jesus, mas não passam disso. Provavelmente, o nosso maior problema hoje seja esse monte de pessoas apenas convertidas sobre a Terra. Elas estagnaram; sua conversão se tornou um fim em si mesma.

A vida de assembléia não é um fim em si mesma. Reúna um grupo dentre o povo do Senhor em uma expressão corporativa, permita que as pessoas estabeleçam seus limites, que se tornem eminentes aos próprios olhos, desfrutem de bons momentos em conjunto, e logo verá a mesma coisa acontecer. Isso também ocorre com a chamada obra do Senhor: se ela se tornar um fim em si mesma – ou seja, se ela se tornar alguma coisa –, novamente teremos uma tragédia. Nós passamos a assumir, de alguma forma, a obra do Senhor, seja a assim chamada obra missionária, ou qualquer outra obra específica, e então aquela coisa particular começa a ser limitada, até aquela esfera ser firmemente limitada ou trazida ao fim. Logo será necessário começar tudo de novo, pois tudo foi perdido. A obra se tornou algo em si mesma.

Vamos relembrar: se o Senhor fez algo com essa essência concentrada do celestial em você, em mim ou em um grupo de pessoas, isso não será um fim em si mesmo. A esfera e a forma podem mudar, mas aquilo permanecerá. Deus tem o que Ele quer e encontrará um caminho para obtê-lo, se aquilo for de fato celestial. Nós só cortamos nossa própria utilidade e nosso ministério quando os trazemos para a Terra. Este é um ditado verdadeiro: faça disso o seu ministério, o meu ministério, e ele será limitado à Terra, não mais se moverá, não cumprirá o propósito designado por Deus.

Oh, essa tentativa de tomar posse das coisas na esfera de Deus e torná-las particularmente nossas! Digo que se você tem um mandato de Deus, se foi ungido pelo céu, se tem um ministério dado por Ele, então, não precisará sustentá-lo como algo propriamente seu ou empenhar-se por sua realização como isso partisse de você. Esse ministério se cumprirá, e nem a Terra nem o inferno poderão detê-lo. O céu cuidará dele. Mas isso precisa ser mantido em relação ao céu. A unção e tudo o que ela envolve vêm do céu e deve ser sustentado a partir do céu, e o próprio céu vai sustentar tudo. Coloque Paulo na prisão, e ainda assim seu ministério será cumprido. Ele está relacionado ao céu. “O céu reina” (Dn 4.26). Mas, se trouxemos esse ministério para qualquer lugar na Terra, então o céu não irá patrociná-lo. Temos muitos exemplos disso na história.

Percebendo que o objetivo de Deus é plenitude espiritual e celestial, e que ela ocorre por meio de um alargamento progressivo, devemos ter profundo interesse em saber qual é esse caminho. Devemos ter real interesse em conhecer esse caminho do céu, o que é o caminho do céu para chegar ao propósito final de Deus. “Tudo o que dantes foi escrito, para o nosso ensino foi escrito” (Rm 15.4). O livro de Josué é parte dessas coisas que dantes foram escritas para nosso ensino, e nele recebemos muita luz sobre esse assunto do caminho celestial, que é tão contrário ao caminho terreno. Não sei o que você espera que aconteça ou espera experimentar quando falamos que o objetivo de Deus é a plenitude espiritual e que é algo em que Deus está operando. O que você espera que aconteça? Acredito que a primeira parte deste livro traz luz a esse respeito.

O espírito de servo

Olhemos para Josué. Lembre-se de que Josué representa o propósito de Deus para todos os Seus santos e todos os Seus servos, e que aquilo que Deus fez em Josué é o que Ele fará com todos aqueles a quem vai ministrar. O que Deus fez com Josué relacionava-se a um grupo maior. Bem, como isso teve início? O livro começa assim: “E sucedeu, depois da morte de Moisés, servo do Senhor, que o Senhor falou a Josué, filho de Num, servo de Moisés” [Js 1.1] – a palavra “servo” significa “assistente”. Pensando em tudo que está diante de nós nesse livro, talvez pensemos que ele deveria ter um início melhor. Moisés, o servo do Senhor, e Josué apenas seu assistente? Ele não é apresentado com um título oficial, como “o servo do Senhor”, mas apenas como um assistente. Vamos seguir essa palavra e ver onde ela nos conduzirá. A mesma palavra é usada com referência a João Marcos: “E tinham também a João como seu cooperador” (At 13.5). O que é um assistente, um cooperador? Bem, um ponto importante a respeito de um assistente, com certeza, é que ele conhece aquele tipo de sujeição que torna possível fazer o que lhe é exigido. Aqui temos o início daquele poderoso Josué que haveremos de ver mais à frente.

Conhecemos a grande importância de Eliseu. Que lugar notável Eliseu veio a ocupar, recebendo uma porção dobrada do espírito de Elias e realizando obras ainda maiores do ele fez! Você se lembra do que foi dito sobre Eliseu. “Eliseu […] derramava água sobre as mãos de Elias” (2Rs 3.11). Ele era seu assistente. Foi aí que Eliseu começou.

No capítulo 10 de Josué, quando ele ordena ao Sol: “Sol, detém-te”, está escrito: “E não houve dia semelhante a este, nem antes nem depois dele, ouvindo o Senhor assim a voz de um homem” [vv. 12,14]. Este homem estava tocando nas coisas celestiais. Isso é impressionante. Onde isso começou? Como assistente de Moisés! Ele aprendeu a sujeição: fazer o que lhe era dito, realizar coisas triviais, ser obediente e assumir uma posição humilde. E não pense que isso foi fácil para Josué. Ele tinha uma alma, assim como qualquer um de nós. Houve uma ocasião em que outros profetizavam no acampamento, e Josué é quem foi a Moisés e disse: “Moisés, meu senhor, proíbe-o”. E Moisés replicou: “Tens tu ciúmes por mim? Quem dera que todo o povo do Senhor fosse profeta” (Nm 11.26-30). Josué tinha uma alma, suas próprias idéias. Naquela ocasião, ele era um jovem. Mas, aqui, finalmente, ele inicia a grande obra de sua vida, e está prestes a emergir no verdadeiro propósito do chamado soberano de Deus, e a narrativa começa assim: “Moisés, servo do Senhor […] Josué, filho Num, servo de Moisés”. Esse não seria um princípio? Temos algo aqui. Devemos sempre nos lembrar que foi o Espírito Santo quem escreveu a Bíblia – e o Espírito Santo é constante com os princípios espirituais. Não importa qual a forma deles; não importa quando, onde ou como: o princípio permanece exatamente o mesmo.

Os levitas começavam seu ministério aos 25 anos, mas não lhes era autorizado assumir plena responsabilidade até os trinta anos. Eles permaneciam debaixo da coordenação de levitas experimentados por cinco anos. Esse princípio do Assistente é sustentado ao longo das Escrituras. Sempre existe um período ou uma fase probatória antes da plena aprovação. A plenitude será suspensa até que o propósito específico de aprendizagem naquele período como Assistente seja alcançado. Ali será inculcada a habilidade de obedecer, receber ordens, permanecer em sujeição, servir. Não devemos presumir que somos alguma coisa. Aquilo que viremos a ser deve fluir naturalmente daquilo que pouco a pouco nos tornamos. Não devemos esperar que ocorra uma imediata e inevitável demonstração grandiosa do poder e da plenitude de Deus logo que Ele nos chamar para servi-Lo. Josué foi o Assistente de Moisés por muito tempo antes de ser tornado em seu sucessor, e bem antes que a manifestação do espírito de Moisés fosse percebida nele.

Deus cava fundo; Ele não tem prazer na superficialidade, e a medida de nossa utilidade em relação a Seu propósito pleno será equivalente à medida de nossa disciplina, por meio de provas. Nunca seremos líderes espirituais enquanto não tivermos aprendido a mansidão, como Assistentes fiéis.

Devemos nos lembrar, então, que sucessão nas coisas celestiais não se trata de algo oficial. Nunca acontecerá por meio de seleção humana, e nunca será presumida por causa das pessoas envolvidas. Não podemos assumir que somos os sucessores daquilo que Deus tem feito. Não podemos presumir que temos um lugar ali, e certamente ninguém poderá nos estabelecer nisso. Se essa for uma sucessão celestial, será soberana e espiritual. Nunca saberemos como a soberania Divina vai agir, mas podemos estar bem cientes de que o propósito Divino vai agir ao contrário de nossas expectativas e idéias.

Graça soberana

O próximo movimento foi enviar espias. Josué os enviou. Qual foi o resultado? “Toda a terra está adiante: Eu a dei a vocês.” “Hoje começarei a engrandecer-te perante os olhos de todo o Israel” [Js 3.7]. Temos uma imensa plenitude à vista. Bem, então, certamente veremos muita dignidade ao longo de todo o processo? Não. Raabe, uma prostituta, é a chave de toda a situação. Uma mulher sem uma boa reputação, ou de má fama, sem posição social alguma no conceito do mundo: tudo está ligado a isso. Isso reflete a soberania e a graça: não entraremos na terra da plenitude celestial sem essas duas coisas. Até mesmo o promissor Josué descobre que tudo depende de uma mulher de má fama.

Deus tem estranhas maneiras de nos humilhar. Quantas vezes buscamos algo maravilhoso, grandioso, glorioso, nobre e renomado em relação às grandes coisas de Deus. Então, Ele nos reduz nos levando a aceitar algo sem nenhum qualquer reconhecimento, sem aceitação alguma, exatamente aquilo que vai barrar nossa expectativa de receber louvor e admiração, se for isso que estamos buscando.

Se estivermos desejando ser introduzidos numa esfera de influência e utilidade, bem, não será dessa forma. Não haverá a possibilidade de chegar a lugar nenhum nesse mundo tomando esse caminho. Veja a influência que aquela mulher tinha em Jericó. Será que sua palavra teria algum peso ali? De jeito nenhum. Não houve envolvimento de altos escalões. Se isso não for algo dado pelo céu, não temos mais nada a nosso favor, não recebemos nenhuma ajuda externa. Não, não temos nenhuma outra base, nenhum caminho, nenhum outro ponto de apoio, que não seja do céu. Não podemos contar com pessoas influentes na corte nessa questão. Tudo deve vir do céu: será fruto da soberania ou nada teremos.

E tudo é fruto da graça, pois Raabe está na genealogia de Jesus Cristo. Maravilhoso! Quando chegamos à genealogia do Novo Testamento: Raabe! Oh, graça! O que poderia recomendar Raabe? O que poderia colocá-la no registro inspirado, nas Sagradas Escrituras, na linhagem de Jesus Cristo? Nada além de graça, e isso vem do céu. É assim que tudo funciona. Se algo deve ter valor real, será derivado da graça soberana, e nada mais; não haverá lugar para recebermos elogios. Estamos fora da corte, não temos nada que sustente nossa reivindicação, nada natural que possa nos apoiar. Estamos bem no nível de Raabe. Imagine o grande Josué aceitando isso. Mas esse é um princípio constante ao longo da Palavra de Deus. Se ao menos pudesse mostrar-lhes como ele se repete. Vocês diriam: “Ora, Deus parece sair de Seu caminho em detrimento de Seus próprios interesses, arriscando prejudicar o sucesso de Seus propósitos, tornando-os realmente difíceis de alcançar. Ele poderia ao menos ter escolhido uma pessoa respeitável, ainda que não fosse importante ou proeminente.” Mas Ele toma uma pessoa de má reputação, e faz de tudo para manter essa situação fiel a Seus princípios. Se não for fruto do céu, será menos que nada. Aquela mulher é a chave de Jericó, e Jericó é a chave da terra. Esse é o tipo de chave que o Senhor usa.

O homem natural banido

Quando chegamos ao fim da travessia do Jordão, Josué ordena que seja escolhido um homem representante de cada tribo de Israel, e que esses homens tomem doze pedras, colocando-as no leito do Jordão e deixando-as ali. Todo Israel, cada homem em Israel foi deixado no leito do Jordão. Assim é o homem aos olhos de Deus: uma pedra deixada no fundo do Jordão, deixada para trás. Aquilo que atravessa o Jordão e sai do outro lado é um testemunho de que algo foi deixado para trás, porque logo a seguir temos Gilgal. Algo havia sido deixado para trás. Não poderemos trazer isso para a terra, deve ser deixado no Jordão, não tem suporte aqui no céu. Este homem natural, esse conceito coríntio do homem, ficará ali, no fundo do Jordão, Deus deixou lá. As águas o cobriram e voltaram a correr, e ele está lá no fundo, enterrado para sempre. “E ali estão até ao dia de hoje” (Js 4.9). Esse é o caminho do alargamento.

Mas Deus precisa nos mostrar isso, e me parece que Gilgal foi a aplicação prática do princípio implícito naquelas pedras que ficaram no leito do rio. Aquelas pedras representavam a união do povo de Deus com Cristo em Sua morte e em Seu sepultamento – o homem natural que estava em evidência no deserto estava sendo tirado de vista. Gilgal toma essa verdade e a aplica perpetuamente. Colossenses 2.11,12 confirma isso. Precisaremos experimentar isso em nossa alma – em nossa carne –: a obra cortante da Cruz, a morte de Cristo. Podemos crer em toda a doutrina de Romanos 6 e, ainda assim, é possível que estejamos vivendo de modo grandemente contrário a isso em nós mesmos. O céu não se comprometerá com a carne ou com a vida natural. Se estivermos ocupados com nós mesmos, falando sobre nós, sobre nosso trabalho, sobre como temos sido usados, e coisas assim, não estaremos nos valores plenos de um céu aberto. É tão fácil deslizar inconscientemente de dar glória a Deus para gloriar-se na própria obra ou em parte dela. Quando isso acontece, a atmosfera muda e as pessoas espiritualmente sensíveis sabem que algo aconteceu, que uma nuvem desceu. O céu é tão transparente que nenhum vapor dessa Terra pode chegar lá, e a plenitude celestial demanda por transparência em nosso espírito.


Para ler o capítulo 1, clique aqui; capítulo 2, aqui; capítulo 3, aqui; capítulo 4, aqui, capítulo 5, aqui.

Traduzido por Maria Ewald de Pioneers of the Heavenly Way; “Chapter 6 – The Way to God’s End”. Revisado por Francisco Nunes. Este artigo pode ser distribuído e usado livremente, desde que não haja alteração no texto, sejam mantidas as informações de autoria e de tradução e seja exclusivamente para uso gratuito. Preferencialmente, não o copie em seu sítio ou blog, mas coloque lá um link que aponte para o artigo. Ao compartilhar nossos artigos e/ou imagens, por favor, não os altere.
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