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O artigo a seguir apareceu em 1864 na publicação Things New and Old (Coisas novas e velhas), cujo editor foi C. H. Mackintosh. Trata-se de uma resposta a um leitor que lhe escreveu. Atentamente para o zelo que se evidencia na explanação deste irmão da “época antiga”.

O Cristão e o Dinheiro

Li sua carta com profundo interesse e concordo plenamente com os seus pensamentos que você teceu sobre o tema: “o cristão e o dinheiro”. Sim, eu certamente creio que o cristão tem o dever de prover pelas necessidades diárias de sua família, o dever de educar seus filhos e de encaminhá-los para que obtenham os seus próprios recursos e aprendam a ganhar seus proventos de maneira honesta. São tão claras as instruções no Novo Testamento para que se faça estas coisas, que não há margem para dúvidas. Porém estes sagrados deveres não tocam a questão de acumular e guardar, por um lado, e de especular, por outro. Não cremos que uma ou a outra coisa sejam adequadas. Cremos que acumular dinheiro ou bens materiais enche a alma de ferrugem, enquanto que a especulação enche o coração e a mente de preocupações e ansiedade. Amamos e honramos a diligência e o esforço honesto; porém a Escritura nos diz que “o amor do dinheiro é a raiz de toda espécie de males” (1 Tm 6:10). Não cremos que a benção de Deus repouse sobre seus filhos quando estes se tornam acionistas de empresas do mundo. Você mesmo, querido amigo, passou por esta experiência. Pensamos que teria feito muito melhor se tivesse adquirido uma casa – seja para morar nela ou para alugá-la – do que investir o seu dinheiro em uma empresa do tipo que descreveu. Porém estas são coisas que devem ser reguladas entre o Senhor e a própria consciência de cada um. Somente é bom lembrar que cometer realmente um pecado é uma coisa bem diferente que estar em falta na sua devoção pessoal ou não estar à altura correspondente a um discípulo de Cristo. Que possamos todos buscar com afinco esta devoção pessoal e este elevado nível de um caminhar condizente com a condição de discípulos. Lamentavelmente verificamos que isto falta nos dias de hoje, em que a maré do mundanismo está avançando e a ponto de nos encobrir. Não conhecemos outra barreira mais eficaz contra ela que uma inteira devoção de coração e uma consagração a Cristo e a sua causa. Quando o verdadeiro pendor da alma é para Cristo, o indivíduo não se vê acometido por angustiantes perguntas se isto ou aquilo é bom ou mau. Agora, quando a alma não está inclinada para Cristo, o coração pode armar se de milhares de argumentos plausíveis, e é uma verdadeira perda de tempo e um vão esforço tratar de responder tais argumentos, posto que não há capacidade espiritual para apreciar a força da resposta.
Que Deus lhe bendiga, meu caro amigo, e conforte o seu coração em vista desta sua pesada perda. Que sua inquebrantável confiança possa estar nEle, e Ele lhe demonstrará ser dez mil vezes melhor que todas as empresas de “sociedade anônima” operando na bolsa de valores”.

Não vemos nada de mal um cristão solicitar uma melhoria de salário, sempre e quando isto não for fruto de ambição, mas com vistas ao sustento de sua família. Porém não podemos tratar de estabelecer regras quanto a este tema. Tudo dependerá muito das circunstâncias de cada caso.

No que diz respeito à passagem de Lucas 16:9: “granjeai amigos com as riquezas da injustiça, para que, quando estas vos faltarem, vos recebam eles nas moradas eternas”, sempre a temos explicado mediante 1 Timóteo 6:17-19: “manda aos ricos deste mundo que não sejam altivos, nem ponham a esperança na incerteza das riquezas, mas em Deus, que abundantemente nos dá todas as coisas para delas gozarmos; que façam o bem, enriqueçam em boas obras, repartam de boa mente e sejam generosos; que entouserem para si mesmos um bom fundamento para o futuro, para que possam alcançar a vida eterna”. Esta passagem constitui um excelente comentário à passagem de Lucas. As coisas que nos pertencem como cristãos não são propriamente as riquezas deste mundo. As nossas riquezas são celestiais; as nossas bênçãos são celestiais, estão nos lugares celestiais e em Cristo (Ef 1:30). Ao judeu, sim, são próprias as riquezas deste mundo; ao cristão, porém, elas são o “mamom” – a injustiça (Mt 6:24; Lc 16:9,13), ou seja, são riquezas que não nos pertencem legitimamente.

Se, por ocasião de sua conversão, alguns já sejam possuidores de tais riquezas, Lucas 16:9 os ensina que façam amigos com elas, gastando-as no serviço do Senhor e para os pobres, entesourando “para si mesmos um bom fundamento para o futuro”. A expressão “para que vos recebam” também pode ser revertida assim: “para que elas sejam o meio de recebê-los”. Temos aí a verdadeira maneira de empregar as riquezas, a melhor forma de investir o capital. Produzirá uma rentabilidade cem vezes maior. Que banco deste mundo, ou que empresa de “sociedade anônima” operando na bolsa de valores poderá oferecer tamanha rentabilidade? Ultimamente, muitos crentes tem provado o amargo resultado de ir após aquilo que consideravam “perspectiva de lucro”. É de se questionar até mesmo se a desastrosa quebra de alguns bancos ou a queda de empresas operando nas bolsas não é o resultado dos caminhos de Deus para com os seus filhos que estavam associados com elas.
O melhor que podemos fazer com nosso dinheiro é gastá-lo para o Senhor. Isso, então, ao invés de colocar ferrugem em nossas almas, acumulará tesouros no céu (Mt 6:19-20). É conveniente recordar que Lucas 16:9 e 1 Timóteo 6:17-19 se dirigem aos discípulos, e não aos inconversos. Se perdermos isto de vista, estaremos apenas jogando poeira nos olhos dos homens, induzindo-os a supor que “o dom de Deus pode ser obtido com dinheiro”. Havia um homem que pensava assim, e Pedro lhe disse: “o teu dinheiro seja contigo para perdição” (Atos 8:20).

Quanto a Romanos 13:8: “a ninguém devais coisa alguma”, isto deve ser tomado em seu sentido direto e amplo.

Cremos que o ensino aqui simplesmente seja não dever nada a ninguém. Queira Deus que isto seja – em seu mais pleno sentido – uma realidade na vida de todos! É lastimável a falta de consciência que muitos cristãos professos têm demonstrado com respeito às dívidas. Exortamos solenemente a todos os nossos leitores que porventura tenham por hábito envolver-se em dívidas, a julgar-se a si mesmos com respeito a este tema, e que abandonem em seguida uma falsa posição. É muito melhor sentar-se para comer um pedaço de pão duro e vestir uma roupa usada, do que viver bem e vestir-se bem às custas de nosso próximo. Esta última hipótese, nós a consideramos como verdadeira injustiça.
Queira Deus que tenhamos uma mente íntegra quanto a isto!

A grande prioridade para uma pessoa endividada deve ser honrar sua dívidas. Devemos ser antes justos que generosos.

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Esta mensagem foi extraída de Leituras Cristãs 42 nº 5

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