Um dia, conversando com um desconhecido no interior do estado de São Paulo, tive oportunidade de dizer-lhe que sou cristão. Imediatamente, ele me fez uma pergunta que tenho ouvido inúmeras vezes: “Qual é o nome da sua igreja?”

Na confusão denominacional em que se encontra a cristandade atual, não podemos estranhar essa indagação, mas não devemos esquecer que já houve um tempo em que ninguém faria tal pergunta. Naqueles dias, agora tão distantes, não seria necessário perguntar, pois não havia denominações. “Todos os que criam estavam juntos” (At 2.44).

Lendo o Novo Testamento, percebemos que aquela união tão linda e tão agradável a Deus continuou por algum tempo. Veja, por exemplo, o que aconteceu em Corinto.

Quando chegou a Corinto para anunciar o evangelho, Paulo encontrou duas classes de pessoas: judeus e gentios. Tanto uma como a outra desprezou sua mensagem, mas por razões diferentes. Os judeus queriam ver sinais, uma demonstração de poder; os gentios queriam ouvir sabedoria, uma demonstração de inteligência; mas Paulo insistiu em pregar a Cristo crucificado, escândalo para o judeu e loucura para o gentio (1Co 1.22-24), e muitos coríntios, ouvindo-o, creram e foram batizados (At 18.8).

Quando Paulo saiu de Corinto, portanto, não havia apenas dois grupos de coríntios, mas três. Escrevendo sua primeira carta àqueles irmãos, ele disse que não deveriam causar escândalo “nem aos judeus, nem aos gregos nem à igreja de Deus” (10.32). Mas observe bem: não havia necessidade de denominar aquela igreja, pois os cristãos estavam juntos; não havia divisões.

Nessa altura, porém, algo ominoso, preocupante, estava acontecendo naquela igreja. Uns diziam: “Eu sou de Paulo”, e outros: “Eu sou de Apolo”. Foram os primeiros sinais de denominacionalismo. Leia os capítulos 1 a 3 e veja como o Espírito Santo se entristeceu com isso. Veja como a epístola condena tal atitude dos coríntios.

É triste ver que aquela semente, lançada em Corinto, germinou, e hoje temos o fruto maduro e abundante. O denominacionalismo agora é tão antigo, tão enraizado e tão generalizado, que a maioria dos cristãos o aceita como se fosse normal. Muitos até o consideram necessário para acomodar os gostos diferentes do povo de Deus!

Nesta época denominacionalista, a pergunta do começo do artigo não surpreende. O fato, porém, de não causar surpresa hoje não deve obscurecer a lamentável realidade que Deus se entristece muito com isso. Veja quão diferente é o modelo que Ele deixou para Seu povo.

A primeira ocorrência da palavra “igreja” depois da descida do Espírito Santo é em Atos 2.47: “E todos os dias acrescentava o Senhor à igreja aqueles que iam sendo salvos”. Pouco tempo depois, Deus fala do grande temor em toda a igreja (5.11) por causa de Ananias e Safira. Nestes versículos, nenhum nome foi dado para identificar a igreja. E não era necessário, pois todos os que criam estavam juntos. Não havia outra igreja. Era tão simples e tão lindo.

Mas o evangelho avançava, e outras regiões foram alcançadas. Muitas outras igrejas foram plantadas. Mesmo assim, não há sugestão alguma de nome para identificar essas igrejas. Deus simplesmente as chama pelo nome da cidade. Lemos da igreja que estava em Jerusalém (8.1), da igreja que estava em Antioquia (13.1) e da igreja que estava em Éfeso (Ap 2.1), etc. O modelo é claro: em qualquer cidade onde havia conversões, aquelas pessoas salvas começavam a se reunir ali localidade como igreja. Não havia necessidade de denominá-la, pois não havia divisões. Eram simplesmente cristãos, reunidos ao nome do Senhor Jesus. O mal do denominacionalismo ainda não havia levantado a cabeça.

Mesmo quando muitas igrejas foram plantadas numa região, ainda não vemos um nome denominacional. Lemos das igrejas da Galácia (1Co 16.1), das igrejas da Macedônia (2Co 8.1) e das igrejas da Judéia (Gl 1.22), etc. Continuavam sendo apenas igrejas, sem qualquer denominação.

Essa maneira de referir-se às igrejas de uma região nos ensina uma lição importante. Aquelas igrejas eram autônomas. Não vemos uma federação de igrejas naquelas regiões. Não foi organizada A Igreja da Galácia ou A Igreja da Macedônia. Aquelas igrejas não se filiavam a organização alguma. Era por essa razão que não precisavam de denominação. Eram apenas igrejas locais e autônomas.

Vemos essa verdade com ainda maior clareza ao observar outra maneira de descrever as igrejas. Lemos da igreja dos laodicenses (Cl 4.16) e da igreja dos tessalonicenses (1Ts 1.1; 2Ts 1.1). A igreja que estava em Laodicéia (Ap 3.18) era a igreja dos laodicenses (Cl 4.16). Aquela igreja não fazia parte de um movimento nacional ou internacional, mas era uma igreja estritamente local, composta unicamente de laodicenses. Da mesma forma, a igreja em Tessalônica era a igreja dos tessalonicenses – local e autônoma.

Considere mais algumas expressões que Deus usa para descrever estas igrejas. [Não são nomes denominacionais, mas designações que destacam certas características da igreja. (N.R.)]

Igreja de Deus (1Co 10.32)

Cada igreja local pertence a Deus. A igreja dos laodicenses era composta de laodicenses, mas pertencia a Deus. Esse fato nos faz lembrar que nós não temos o direito de modificar a igreja ou tentar adaptá-la ao nosso gosto. Ela não é nossa. Destaca também a reverência que deve caracterizar todas as reuniões da igreja. Que sejamos fiéis, submissos e reverentes.

Igrejas de Cristo (Rm 16.16)

A igreja existe para Cristo, não para nós. Ele é o Cabeça; a igreja é o corpo. Cada igreja local é reunida a Seu nome, e deve adorá-Lo na presença de Deus e anunciá-Lo ao mundo. Veja 1Coríntios 11.23-26 e 1Pedro 2.5,9.

Igrejas dos gentios (Rm 16.4)

Nesta expressão Deus nos faz lembrar do que éramos: gentios, sem Cristo, sem esperança e sem Deus no mundo. Agora fazemos parte da igreja de Deus e de Cristo. Isso é graça! Isso é a maravilhosa graça!

Igrejas dos santos (1Co 14.33)

Essa expressão não mostra o que éramos, mas, sim, o que somos. Se “as igrejas dos gentios” destaca a graça soberana de Deus, “as igrejas dos santos” destaca a responsabilidade individual de cada membro da igreja. Deus, por Sua graça, nos santificou (Hb 10.10); devemos ser santos, como Ele é santo (1Pd 1.15).

Conclusão

Que nosso coração aprecie a beleza do modelo que Deus deixou para a igreja local. Sua simplicidade será desprezada pela carne e pelo mundo; o inimigo há de continuar atacando-a de todas as formas, mas Deus garante Sua graça. Se estamos dispostos a guardar Sua Palavra e não negar Seu nome, ninguém poderá fechar a porta (Ap 3.8).

Fonte: revista O Caminho, 17. Revisado por Francisco Nunes. Este artigo pode ser distribuído e usado livremente, desde que não haja alteração no texto, sejam mantidas as informações de autoria e de tradução e seja exclusivamente para uso gratuito. Preferencialmente, não o copie em seu sítio ou blog, mas coloque lá um link que aponte para o artigo.
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