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Dentre os cristãos de todas as épocas e das várias nuances de ênfase doutrinária, tem havido imparcialmente pleno acordo em uma coisa: todos eles creram que é importante que o cristão com sérias aspirações espirituais aprenda a meditar longa e freqüentemente em Deus. 

Deixe os cristãos insistirem em sair da pobre média da experiência religiosa atual, e logo se voltarão em defesa da necessidade de conhecer o próprio Deus como o alvo final de toda doutrina cristã. Deixe-os procurar explorar as sagradas maravilhas da Divindade triúna, e descobrirão que a meditação mantida na pessoa de Deus e a ela inteligentemente dirigida é imperativa. Para conhecerem bem a Deus devem pensar Nele incessantemente. Nada do que temos descoberto sobre nós mesmos ou sobre Deus revelou qualquer atalho para a pura espiritualidade. Ela ainda é gratuita, mas tremendamente custosa.

Naturalmente isso pressupõe pelo menos uma quantidade mínima de conhecimento teológico saudável. Buscar a Deus à parte de Sua própria auto-revelação na Escritura inspirada não é somente fútil, mas perigoso. Deve haver também um conhecimento e uma completa confiança em Jesus Cristo como Senhor e Redentor. Cristo não é um dentre os vários caminhos para se aproximar de Deus nem o melhor dentre todos os caminhos. Ele é o único caminho. “Eu sou o caminho, a verdade e a vida. Ninguém vem ao Pai senão por Mim.” Crer de outra forma é ser algo menos que um cristão.

Estou convencido de que a falta de grandes santos nesses tempos, mesmo dentre aqueles que crêem verdadeiramente em Cristo, se deve, pelo menos em parte, à nossa má vontade em dar tempo suficiente para o cultivo do conhecimento de Deus.

Nós, do agitado Ocidente, somos vítimas da filosofia do ativismo, tragicamente mal compreendida. Ganhar e gastar, ir e vir, organizar e promover, comprar e vender, trabalhar e brincar: é isso que constitui o viver. Se não estamos fazendo planos ou trabalhando para concretizar os planos já feitos sentimo-nos derrotados, estéreis, eunucos infrutíferos, parasitas no corpo da sociedade. O evangelho das obras, como alguém o chamou, tem impedido a entrada do evangelho de Cristo em muitas igrejas cristãs.

Em um esforço para conseguir fazer a obra do Senhor, freqüentemente perdemos o contato com o Senhor da obra e literalmente desgastamos muito nosso povo também. Já ouvi mais de um pastor gabar-se de que sua igreja era viva, apontando para o calendário impresso como prova disso: atividades todas as noites e várias reuniões durante o dia. Sem dúvida, isso não prova nada exceto que o pastor e a igreja estão sendo guiados por uma filosofia espiritual ruim. Uma grande parcela dessas atividades consumidoras de tempo é inútil, outras delas são completamente ridículas. “Mas”, dizem os ávidos castores que administram as gaiolas dos esquilos religiosos, “elas promovem comunhão e mantêm nosso povo junto”. A isso respondo que o que elas promovem não é comunhão de forma alguma, e que, se isso é a melhor coisa que a igreja tem a oferecer para manter o povo unido, ela não é uma igreja cristã no significado desta palavra no Novo Testamento. O centro de atração em uma igreja verdadeira é o Senhor Jesus Cristo. Quanto à comunhão, deixemos que o Espírito Santo a defina para nós: “E perseveravam na doutrina dos apóstolos, e na comunhão, e no partir do pão e nas orações” (At 2:42).

Nossas atividades religiosas deveriam ser ordenadas de tal forma a deixar bastante tempo para o cultivo dos frutos da solitude e do silêncio.

As pessoas mundanas nunca podem descansar. Elas precisam ter algum lugar para ir ou algo para fazer. Isso é um resultado da Queda, um sintoma de um estado doentio profundo, mas também uma liderança religiosa cega supre essa terrível inquietação em lugar de tentar curá-la pela Palavra e pelo Espírito. Se as muitas atividades em que a média das igrejas se engaja levassem à salvação dos pecadores ou ao aperfeiçoamento dos crentes, elas justificariam a si mesmas fácil e triunfantemente, mas as atividades não produzem isso. Minhas observações me levaram a crer que muitas, talvez a maioria, das atividades em que a igreja está envolvida não contribui de nenhuma forma para cumprir a verdadeira obra de Cristo na terra. Espero estar errado, mas temo estar certo.

Nossas atividades religiosas deveriam ser ordenadas de tal forma a deixar bastante tempo para o cultivo dos frutos da solitude e do silêncio. Deveríamos ser lembrados, no entanto, de que é possível ter esses períodos de quietude apenas quando estamos aptos para arrancar-nos a nós mesmos para fora do dia que clama por nossa atenção. Nossa meditação deve ser dirigida a Deus; do contrário, gastaremos o tempo de quietude em conversa com nós mesmos. Isso pode aquietar-nos os nervos, mas não avançará para nossa vida espiritual de forma alguma.

Ao virmos a Deus, devemos nos colocar em Sua presença com a convicção de que Ele é o iniciador, e não nós.

Ele esteve esperando para se manifestar a nós até a hora em que nosso ruído e atividade cederam o bastante para fazer-se ouvido e sentido por nós. Então, devemos focalizar a capacidade de atenção de nossa alma na triúna Divindade. Qual é a Pessoa que exige nosso presente interesse não importa; podemos confiar que o Espírito traz-nos à mente a Pessoa que mais precisamos notar.

Mais uma coisa. Não tente imaginar Deus, ou você terá um Deus imaginário; e, por favor, não faça, como alguns fazem, de colocar uma cadeira para Ele sentar. Deus é Espírito. Ele habita em seu coração, não em sua casa. Medite nas Escrituras e deixe a fé mostrar Deus a você como Ele é ali revelado. Nada pode se igualar a essa gloriosa visão.

Revisado por Francisco Nunes. Este artigo pode ser distribuído e usado livremente, desde que não haja alteração no texto, sejam mantidas as informações de autoria e de tradução e seja exclusivamente para uso gratuito. Preferencialmente, não o copie em seu sítio ou blog, mas coloque lá um link que aponte para o artigo. Ao compartilhar nossos artigos e/ou imagens, por favor, não os altere.
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